domingo, 14 de agosto de 2011

A arena tricolor



A ARENA TRICOLOR

Gustavo Krause

Foi-se o tempo em que possuir um estádio era sinônimo de grandeza para os clubes de futebol. Hoje, é um ônus insuportável. Sinal de modernidade e progresso. Não adianta maldizer os fatos. Nem permanecer imobilizado, idealizando o passado. O futebol virou um produto rentável, grande negócio ou tenebrosa negociata. Não é feito de demônios. Nem de santos. Não pode ser gerido com exatidão matemática. Nem com os impulsos da emoção. Difícil é encontrar o ponto certo. Estas coisas me vieram à cabeça depois que cedi ao convite de amigos tricolores - Dinarte, Walter Benjamim e Nelson Montenegro - que me levaram ao Arruda para assistir ao jogo Santa Cruz contra o Guarani. Aliás, um hábito que larguei - ir aos estádios -, independente da preferência clubística, por conta de uma razão simples: medo da violência. Não sei se vi todos os lances do jogo; suspeito que passei o tempo todo revendo o passado e visitando o futuro. Emoção positiva: mais de 40 mil pessoas vestidas de vermelho, branco e preto, apaixonadas; emoção negativa: a bola teimou em não entrar na barra adversária o que seria saudado pela explosão de grito de gol. Como o meu passado é longo e o espaço é curto, não vou descrever a paisagem desbotada de tudo que já presenciei naquele estádio. Mas não posso deixar de revelar que, um dia, bem longe, fui apresentado a um acanhado campinho e ml sabia que, tempos depois, a vida pública me faria participar, ainda que modestamente, da transformação do campinho no colosso do Arruda. Presta atenção ao jogo! Repreendia-me a consciência do presente. De repente, a mesma consciência me deslocava em direção ao futuro. O que será daquele gigante nos próximos cinco anos? A pergunta me fustigava com o açoite da incerteza. Na década de 70, Pernambuco resistiu ao desperdício dos estádios públicos, todos batizados com aumentativos das homenagens personalistas. Os clubes pernambucanos se cozeram com suas próprias e minguadas linhas, com ou sem apoio do poder público. Agora, chegou o tempo das arenas de múltiplos usos que atendem à rentável indústria do entretenimento e às exigências da Fifa para que o Brasil, na lei ou na marra, seja o palco da Copa. A sensação é que tudo será permitido e depois... Bem, o depois a Deus pertence. Meditando, voltei silencioso para casa. No caminho, relia a lição de um santo filósofo, Santo Agostinho, para quem "o presente do passado é a memória, o presente do presente é o tempo a percepção direta e o presente do futuro é a esperança". Que a esperança, os santos e os homens de boa vontade mantenham de pé, viva, a arena tricolor.

Publicado no Jornal do Commercio, Recife, sábado, 13.08.2011

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