terça-feira, 16 de agosto de 2011

Calçada da igreja serve de berço ao Santa Cruz



CALÇADA DA IGREJA SERVE DE BERÇO AO SANTA CRUZ

Givanildo Alves

Em 1914, o futebol não era mais privilégio do Sport, Náutico e ingleses. Ele havia se alastrado, começado a se popularizar e raro era o dia em que nos jornais não saíam notinhas comunicando a fundação de mais um clube. Era o Paulistano, Internacional, Centro Esportivo do Peres, Coligação Recifense, Agros, Caxangá, Flamengo, Olinda, Botafogo, João de Barros (atual América), Velox, Americano e tantos outros. Chegou-se até a fundar uma Liga, a Recifense, que teve poucos dias de vida. Jogava-se na campina do Dérbi, no Jardim Treze de Maio, no British Club, em Santana, no Colégio São Vicente de Paulo, em Olinda, Areias. Jogava-se, enfim, onde houvesse um terreno baldio, e até mesmo nas ruas se jogava.
Os jornais mais lidos da época, como o Jornal Pequeno, Diario de Pernambuco, A Província e Jornal do Recife, que antes davam mais ênfase às regatas e turfe, começaram a ceder mais espaços ao futebol, cujas notícias eram consumidas cm muito interesse pelo povo. Ela não saíam mais espremidas em uma coluna, como antes, mas em duas, três e até quatro! A falta de fotos, encimavam o noticiário com ilustrações, mostrando os jogadores disputando a posse da bola à frente de uma barra.
E foi em meio à febre pelo novo esporte que nasceu a 3 de fevereiro de 1914 o Santa Cruz Futebol Clube, idealizado por um grupo de adolescentes estudantes do Colégio Salesiano que, à noite, costumava reunir-se na calçada da igreja de Santa Cruz, da rua do mesmo nome, no bairro da Boa Vista, do que resultou o nome do clube. A reunião foi na Rua da Mangueira (hoje Leão Coroado), casa nº 2, bairro d Boa Vita, tendo sua primeira diretoria ficado assim composta: Presidente, José Luiz Vieira; Vice, Quintino Miranda Paes Barreto; 1º Secretário, Luiz Gonzaga Uchôa Barbalho; 2º Secretário, Augusto Dorneles Câmara; Tesoureiro, Augusto Franklin Ramos, e Diretor de Esportes, Orlando Dias dos Santos. Foram aprovadas as cores branco e preto como oficiais.
Um fato singular e inesquecível marcou o primeiro ano de vida do Santa. Todo mundo queria participar da prieira partida do clube, que tinha acertado um jogo contra o Rio Negro, uma agremiação também nova e composta na sua maioria de garotos. Havia uma grande expectativa não só por parte dos seus defensores, mas também dos seus primeiros torcedores. O local do encontro foi o campo do Dérbi, o mesmo onde havia se realizado o primeiro jogo de futeol no Recife, e que continuava sendo o principal pólo de diversão da cidade. O Rio Negro se esforçou muito, porém não conseguiu evitar a humilhante goleada de 7x0, imposta pelos meninos da Boa Vista. A grande figura do encontro foi o atacante Carlos Machado, que arrasou coma defensiva contrária, fazendo cinco gols dos sete assinalados. No final do jogo a euforia tomou conta de todos pelo grande triunfo de estréia.
A fragorosa derrota tornou-se um pesadelo para a turma do Rio Negro, que resolveu pedir revanche, impondo no entanto duas condições: o jogo seria no seu próprio campo, na Rua do Sebo, hoje Barão de São Borja, e o Santa Cruz não esclaria Carlos Machado. Como era natural, todos estrnharam a segunda condição, todavia mesmo assim o desafio foi aceito. Sem Carlos Machado a reabilitação seria certa, raciocinavam os dirigentes do Rio Negro. O Santa cumpriu fielmente o acordo, chegando em campo na hora prevista e sem o artilheiro. Discretamente os diretores do Rio Negro conferiram se Carlos Machado, o home que havia feito tantos gols na outra partida, estava entre os onze da Boa Vista. Não, não estava. Acabado o jogo, nova vitória do Santa Cruz e por um placar ainda mais elástico: 9x0! Carlindo Cruz, que havia substituído Carlos Machado, ganhou o jogo quase sozinho. Ele fez seis dos nove gols assinalados.


Fonte: História do Futebol em Pernambuco. Diário de Pernambuco, Recife, sábado, 8 de julho de 1995, pág B-5.

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