quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Bandeira alemã influencia nas cores do Santa



BANDEIRA ALEMÃ INFLUENCIA NAS CORES DO SANTA

Givanildo Alves

No ano seguinte (1915), quando se filiou à Liga Esportiva Pernambucana, que deu origem à FPF de hoje, o Santa Cruz teve de mudar suas cores que eram preto e branco, porque o Flamengo, que também era alvinegro, não quis abrir mão daquilo que considerava um direito irreversível. O Santa firmou-se também, na mesma posição de intransigência, tendo o impasse sido resolvido através de um sorteio. O que perdesse, mudaria suas cores. O Santa Cruz perdeu, transformando-se em tricolor até hoje.
Luiz Uchôa Barbalho revelou ao autor deste livro ter sido sua a idéia da introdução do vermelho, a fim de que a bandeira do seu clube ficasse se parecendo com a da Alemanha, por quem torcia na Primeira Guerra Mundial. "Por isso mesmo", disse-me, "fiquei sendo chamado de "germanófilo".
Lacraia (Teófilo Batista) e Ilo Just, ambos jogadores e fundadores do Santa, têm opiniões diferentes sobre o vermelho adicionado ao preto e branco de origem. O primeiro diz que a idéia de colocar o vermelho foi dele, enquanto o segundo afirma textualmente, no Fascísulo nº 1, editado em 1969, sobre a história do Santa Cruz: "Ainda estavámos em dúvida com respeito às cores, quando passou por aqui o Flamengo do Rio, que ia excursionar a Belém do Pará. Resolvemos nosso problema acrescentando o vermelho às nossas cores".
As cores da bandeira alemã tiveram histórias diferentes nos dois clubes de massa. Enquanto no Recife o vermelho foi acrescentado ao preto e branco por simpatias à Alemanha, no Rio de Janeiro os dirigentes do Flamengo tiraram imediatamente a listra branca que separava o vermelho do preto, exatamente para não ficar se parecendo com a bandeira alemã. Mário Filho, no livro "O Sapo de Arubinha", conta a pressa que o Flamengo teve para retirar a listra branca: "Quando afundaram um navio brasileiro e o povo saiu para a rua, para o quebra-quebra, descobriu-se que a camisa do Flamengo, com a linha branca separando o preto do vermelho, era como a bandeira alemã".
Mas não se pense que foram as cores, alvinegras ou tricolores, que fizeram do Santa um time do povo, da massa. O médico Martiniano Fernandes, o Tiano, que jogou no Santa Cruz de 1914 a 1917, é de opinião que o sucesso do clube foi o fato de ter sido fundado por gente jovem, meninos de 12 a 16 anos, enquanto o futebol pernambucano vivia de circunspectos ingleses e de brasileiros que voltaram da Europa, todos de pais ricos, verdadeiros burgueses. Além disso, o Santa tinha em suas fileiras Teófilo Batista de Carvalho, o popular Lacraia, primeiro "colored" do futebol pernambucano. Tiano diz que a presença de Lacraia serviu para estabelecer o elo entre as mais diversas classes sociais.
Mesmo depois de deixar de ser alvinegro, o Santa continuou sendo amado por pretos e brancos, ricos e pobres, até os dias de hoje. O moreno quase negro Lacraia abrasileirou o futebol pernambucano, até então praticado somente pela elite recifense misturada aos galegos de olhos azuis das companhias inglesas aqui instaladas. O Santa Cruz pôs um ponto final no anglicismo futebolístico reinante e iniciou o estilo de jogo nacional da ginga de corpo, do banho-de-cuia, da bola de efeito, do gol de letra, do drible e da picardia. Um futebol enfim narcisista como o espiríto brasileiro. Era a rutura do velho e a instalação do novo.

Fonte: História do Futebol em Pernambuco - Capítulo 7, Diário de Pernambuco, Recife, domingo, 09.07.1995, pag. A-21.


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