sábado, 10 de setembro de 2011

A conquista do nosso primeiro campeonato



A CONQUISTA DO NOSSO PRIMEIRO CAMPEONATO


Clóvis Campêlo

O ano de 1931 foi especial para o futebol pernambucano. Em março, a Liga Pernambucana de Desportos Terrestres (LPDT) une-se à Liga Pernambucana de Desportos Náuticos (LPDN) e é fundada a Federação Pernambucana de Desportos (FPD). Posteriormente, o Santa Cruz conquistaria o seu primeiro título estadual, o primeiro da nova entidade. E, finalmente, nessa temporada, surge Tará, provavelmente o maior jogador do futebol pernambucano em todos os tempos.

DE ONDE ELE VEIO

Humberto Viana, o Tará, foi descoberto pelo jornalista Aristófanes da Trindade, iniciando a sua carreira esportiva, em 1929, num modesto clube de Beberibe: o Mocidade Futebol Clube. Em 1930, transfere-se para o Ateniense, o alvinegro de Campo Grande, um clube de muito cartaz, na época, mas que só disputava amistosos. Quem o viu jogar, garante: se a bola conhecia Pelé, com Tará tinha uma verdadeira relação de intimidade.
De início torcedor do madeira-rubra, o Torre, campeão estadual em 1926, 1929 e 1930, Tará chegou ao Santa Cruz em 1931, através do capitão Carlos Afonso de Melo, então presidente do clube tricolor. Aos 16 anos, ingressando na Polícia Militar para fazer o Curso de Cabo, foi levado pelo capitão para o Santa Cruz e apresentado ao Diretor de Esportes, Ilo Just, que acumulava a função de treinador da equipe principal. Lançado no time ao lado de estrelas como Carlos Benning, Lauro, os irmãos Julinho e Zezé Fernandes e do zagueiro Sherlock, Tará, ao longo do campeonato, iria se firmando no grupo.
Conta Tará que seu pai, Tomaz Viana, não queria sob hipótese alguma que filho seu jogasse futebol. No entanto, quando o presidente Carlos Afonso de Melo, acompanhado pelo jornalista Aristofanes da Trindade, foi a sua casa pedir permissão para levá-lo para o clube tricolor, por ser tenente da Polícia Militar, mesma corporação do capitão, sentiu-se na obrigação de atender ao pedido.
Na campanha do título de 1931, porém, Tará só viria a estrear no campeonato no dia 6 de setembro, no empate com a equipe do Íris, no campo do América, na Jaqueira. Uma estréia discreta já que não marcou nenhum tento, sendo substituído pelo atacante Neves, ainda no primeiro tempo. Muito jovem, durante a competição alternaria bons momentos com atuações apenas regulares, deixando entrever, porém, o grande jogador que viria a ser.

A DIRETORIA DA PRIMEIRA CONQUISTA

O capitão Carlos Affonso de Melo, comandante da primeira conquista estadual e responsável pela ida de Tará para o Santa Cruz, foi eleito presidente no dia 21 de fevereiro, encabeçando uma diretoria que ficou assim constituída: Presidente - Carlos Affonso de Melo; Secretário Geral - Hybernon Borba; 1º Secretário - Lindolpho Silva; 2º Secretário - José Vasquez; Tesoureiro Geral - Oscar Diniz; 1º Tesoureiro - Borba Júnior; 2º Tesoureiro - José Luiz Vieira; Diretor de Esportes - Ilo Just; Vice-Diretor de Esportes - Júlio Fernandes; 1º Procurador - Jayme Rosas; 2º Procurador - Alberto Oliveira.

ENTRANDO NO GRUPO DE ELITE

Até 1930, num total de 16 campeonatos disputados, apenas quatro equipes haviam conseguido chegar ao título máximo estadual: Sport (7 vezes), América (5 vezes), Torre (3 vezes) e o Flamengo (1 vez).
Ao conquistar o campeonato de 1931, o Santa Cruz assegurava a sua entrada nesse grupo seleto, iniciando uma ascensão gloriosa que se consolidaria nas décadas de 1960 e 1970 com a conquista do pentacampeonato estadual e a conclusão do Estádio do Arruda.
Disputando o certame estadual desde a sua primeira versão, em 1915, a equipe tricolor, na realidade, custou para chegar ao título inicial, muito embora tenha sido várias vezes vice-campeão. A incômoda situação mexia com os brios da grande torcida tricolor que procurava justificativas para o fato. No dia 10 de outubro, na véspera do jogo contra o Flamengo, o Jornal Pequeno publicou a carta que abaixo transcrevemos, de um anônimo torcedor, onde fica claro essa inquietação e a necessidade de uma explicação lógica para o longo jejum. A equipe coral venceu a contenda por 3x1, com dois gols de Tará e um de Estevam, e, mesmo não chegando ao título invicto, pois perderia para o Náutico na última partida, aliviou a ansiedade que tomava conta da sua torcida. Eis o texto:
“Rapazes do Santa Cruz, ide amanhã, defendendo o glorioso pavilhão tricolor, disputar, com os vossos valorosos rivais que defendem o também glorioso pavilhão alvinegro, a partida mais sensacional e de mais responsabilidade do presente campeonato. Rapazes do Santa Cruz, necessário se torna que tenhais na memória que esse embate é quase decisivo para o campeonato pernambucano. Se a sorte nos for avara, se fordes derrotado pelo inimigo valoroso, glorificai o onze vitorioso, recebendo a vossa derrota como verdadeiro desportista que sóis. Mas, rapazes do Santa Cruz, entrai “no campo raso da luta”, na frase vitoriosa do vosso hino, com a vossa costumeira vontade forte de vencer. Lembrai-vos da vossa brilhante e sensacional vitória sobre o Botafogo do Rio; lembrai-vos de que foi o tricolor o primeiro clube do Norte que derrotou um clube do Sul; lembrai-vos ainda, rapazes do Santa Cruz, que vós, que ainda não vencestes um único campeonato devido à “força do dinheiro” e às injustiças inúmeras vezes sofridas, se vencerdes o embate de amanhã, podereis ser campeões invictos, o que jamais foi conseguido aqui pelos vossos congêneres. Coragem, rapazes do Santa Cruz. Lutai com denodo e ânimo, com a máximo de vossa resistência e de vossa energia, para que, terminado o embate, tenhamos a satisfação de ver o placar marcando mais uma vitória do glorioso pavilhão tricolor!”

OS NÚMEROS DO CAMPEONATO

O Torneio Início foi disputado no dia 12 de abril, no campo da Av. Malaquias, e teve o América como vencedor, derrotando o Torre, no jogo final, por 3x1. O Santa Cruz disputou dois jogos, eliminando o Sport, no primeiro, por 1x0, e sendo batido pelo Torre, no segundo, por 2x1.
O Campeonato Estadual de 1931 foi iniciado no dia 10 de maio e disputado por 11 equipes, em um único turno. Participaram da disputa: Sport, América, Torre, Flamengo, Santa Cruz, Náutico, Íris, Encruzilhada, Fluminense, Israelita e Associação Atlética do Arruda (AAA). Estas duas últimas equipes solicitaram inscrição de última hora, o que atrasou o início da competição, marcado primeiramente para o dia 19 de abril.
Foram disputados 55 jogos, sendo marcados 313 gols, com a altíssima média de 5,69 tentos por partida (dois jogos foram ganhos por Wx0). Como curiosidade e como prova do futebol alegre e ofensivo praticado na época, não foi registrado nenhum empate pelo placar de 0x0. Santa Cruz e Náutico tiveram os ataques mais positivos, marcando 41 gols, cada, enquanto a defesa menos vazada foi a da equipe coral, com apenas 9 tentos.
Durante a competição foram utilizados os campos do Sport, na Av. Malaquias (17 jogos); do América, na Jaqueira (18 jogos), e do Náutico, nos Aflitos (18 jogos), este o único ainda remanescente nos dias de hoje. Embora o Santa Cruz possuísse o seu campo, nessa época na Rua São Miguel, em Afogados, ao lado da sede social, não chegou a utilizá-lo nos jogos do certame.
No período de 28 de junho a 30 de agosto, o campeonato foi suspenso para que a seleção da FPD participasse do 8º Campeonato Brasileiro de Futebol.

A CAMPANHA TRICOLOR

A equipe tricolor, para chegar ao seu primeiro título estadual, realizou dez partidas, vencendo oito, empatando uma e perdendo outra. O seu ataque marcou 41 tentos e a defesa sofreu apenas 9 gols.
Participaram da campanha os seguintes jogadores: goleiro, Dadá; defensores, Sherlock, Fernando, Dóia, Julinho, Zezé Fernandes e João Martins; atacantes, Walfrido, Aluísio Cabral, Popó, Tará, Neves, Lauro, Carlos Benning, Estevam e Antero.
O Santa Cruz manteve-se invicto durante todo o certame, perdendo apenas o último jogo para o Náutico, nos Aflitos, resultado esse que deixaria a equipe alvi-rubra com o vice-campeonato. Este jogo, aliás, apitado improvisadamente pelo presidente da FPD, Renato Silveira, em substituição ao juiz faltoso, foi a grande mácula na campanha tricolor. No segundo tempo da partida, desentenderam-se os jogadores Zezé Fernandes, do Santa Cruz, e Rui, do Náutico, que acabaram sendo expulsos. O jogador coral, porém, recusou-se a sair de campo gerando uma grande confusão. A equipe tricolor, precipitadamente, abandonou o campo, impedindo que o jogo chegasse ao final. Como conseqüência, o Santa Cruz foi multado em 200$000 (duzentos mil réis), além de perder a parte da renda a que tinha direito. Além do mais, todos os clubes filiados à FPD manifestaram-se contrários à atitude coral, hipotecando total solidariedade ao presidente da entidade. O fato, porém , não tirou o brilho da excelente equipe coral e da sua primeira grande conquista.
Eis, na íntegra, a campanha tricolor em 1931:
Jogo: Santa Cruz 4x1 América. Data: 17/5/31. Local: Jaqueira. Juiz: Oscar Soares (AAA). Gols: Marcelo, para o AME, Aluísio Caldas (2), Estevam e Lauro, para o SAN. Equipes: SANTA CRUZ: Dadá, Sherlock e Fernando, Zezé Fernandes, Julinho e João Martins (Albino), Aluísio Cabral, Neves, Popó e Estevam. AMÉRICA: Pereirão, Barbalho e Ciryl, Deoclécio (Romero), Casado e Marcelo, Moacir, Zezé, Sabino, Ralf e Lula.
Jogo: Santa Cruz 6x1 AAA. Data: 04/6/31. Local: Av. Malaquias. Juiz: Alcindo Wanderley. Gols: Lauro (4) e Popó (2), para o SAN, e Péricles, para o AAA. Equipes: não informadas.
Jogo: Santa Cruz 3x1 Sport. Data: 14/6/31. Local: Av. Malaquias. Juiz: José Fernandes Filho. Gols: Julinho, Antero e Aluísio Cabral, para o SAN, e Bivar, para o SPO. Equipes: SAN: Dadá, Sherlock e Fernando, Dóia, Julinho e Zezé Fernandes, Aluísio Cabral, Neves, Popó, Lauro e Estevam (Antero). SPO: Antonino (Né), Nilo e Douradinho, Ademar, Dourado e Brivaldo, Bivar, Jubal, Júlio, Marcílio e Bulhões.
Jogo: Santa Cruz 7x0 Encruzilhada. Data: 28/6/31. Local: Av. Malaquias. Juiz: José Fernandes Filho. Gols: Lauro (4), Estevam, Neves e Zezé Fernandes. Equipes: SAN: Dadá, Sherlock e Fernando, Zezé Fernandes, Julinho e Dóia, Estevam, Lauro, Popó, Neves e Aluísio Cabral. ENC: Trajano, Pedro Sá e Palmeira, Leitão (Estácio), Sebastião e Cão, Marinheiro, Pila (Mota), Péricles, Lila e Gondim.
Jogo: Santa Cruz 2x2 Íris. Data: 06/9/31. Local: Jaqueira. Juiz: José Fernandes Filho. Gols: Popó e Aluísio Caldas, para o SAN, e, Benedito e Emídio, para o IRI. Equipes: SAN: Dadá, Sherlock e Fernando (João Martins), Dóia, Julinho e Zezé Fernandes, Aluísio Cabral, Tará (Neves), Popó, Lauro e Carlos Benning. IRI: Zé Miguel, Moacir e Walfrido, Fraga, Batista e Alfredinho, Benedito, Emídio (Sales), Chinês, Baiano e Jorge. Expulsão: Chinês (IRI)
Jogo: Santa Cruz 3x1 Flamengo. Data: 11/10/31. Local: Jaqueira. Juiz: Rômulo Souza. Gols: Tará (2) e Estevam, para o SAN, e, Alonso, para o FLA. Equipes: SAN: Dadá, Sherlock e Fernando, Dóia, Julinho e Zezé Fernandes, Walfrido, Aluísio Cabral (Popó), Tará, Lauro e Estevam. FLA: Alberto (Fritz), Hermes e Everaldo, Roberto, Bernardo e Maciel, Fébidas, Norival, Manfredo, Neném e Alonso.
Jogo: Santa Cruz 4x1 Fluminense. Data: 25/10/31. Local: Av. Malaquias. Juiz: não informado. Gols: não informados. Equipes: SAN: Dadá, Sherlock e Fernando, Zezé Fernandes, Julinho e Dóia, Walfrido, Aluísio Cabral, Popó, Lauro e Estevam. FLU: não informado.
Jogo: Santa Cruz 10x0 Israelita. Data: 15/11/31. Local: Jaqueira. Juiz: Tancredo Macedo. Gols: Popó (4), Estevam (2), Walfrido (2), Tará e Zezé Fernandes. Equipes: não informadas.
Jogo: Santa Cruz 2x0 Torre. Data: 13/12/31. Local: Jaqueira. Juiz: José Fernandes Filho. Gols: Walfrido e Estevam. Equipes: SAN: Dadá, Sherlock (João Martins) e Fernando, Dóia, Julinho e Zezé Fernandes, Walfrido, Aluísio Cabral (Popó), Tará, Lauro e Estevam. TOR: Xexéu, Pedro e Barreto, Miro, Arlindo e Hermes, Leleco, J. Dantas, Danzi, Brás e Valencinha.
Jogo: Santa Cruz 0x2 Náutico. Data: 20/12/31. Local: Aflitos. Juiz: Renato Silveira. Gols: Pinto de Abreu e João Manuel. Equipes: SANTA CRUZ: Dadá, Sherlock (Dóia) e Fernando, João Martins, Julinho e Zezé Fernandes, Walfrido, Popó, Tará, Lauro e Estevam. NÁUTICO: Lula, Guimarães e Carvalheira, Rafael, Paulo e Didi, Zezé Carvalheira, Rui, Oswaldo, Pinto de Abreu e João Manuel. Expulsões: Rui (NAU) e Zezé Fernandes (SAN).


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