quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Fundando a Liga Sportiva Pernambucana



Alcindo Wanderley, o Pitot, um dos fundadores da LSP

FUNDANDO A LIGA SPORTIVA PERNAMBUCANA

Clóvis Campêlo


Ano novo, vida nova. Assim, segundo o jornal A Província, no dia 31 de janeiro de 1915, em reunião na sede provisória situada na Rua da Matriz, 46, no bairro da Boa Vista, o Santa Cruz elegeu a sua diretoria para o ano que se iniciava. Alguns meses depois, participaria da fundação da Liga Sportiva Pernambucana.
Nesse meio tempo, segundo a imprensa da época, o Santa Cruz realizou diversos jogos, destacando-se as duas vitórias conseguidas contra o Flamengo do Recife, o futuro campeão do torneio da Liga.
A primeira delas aconteceu no dia 30 de maio, na Campina do Derby, quando ganhou pelo escore de 1xo. Neste jogo, o Santa Cruz atuou com Ilo Just; O. Oliveira e B. Crocia; J. Petribu, F. Carvalho e Luiz Lima; A. Cavalcanti, Alberto campos, Alcindo Wanderley, Mário Rodrigues e Spencer.
O Santa Cruz enfrentaria novamente o Flamengo no dia 20 de junho, também na Campina do Derby, vencendo, dessa feita, por 3xo e atuando com a seguinte formação: Ilo Just; Bruno e O. Oliveira; H. Oliveira, B. Crocia e T. Carvalho; Spencer, Alberto Campos, Alcindo Wanderley, Mário Rodrigues e Lino.

SURGE A LIGA

Em que pese a grande quantidade de clubes de futebol já existentes no Recife em 1915, a Liga foi fundada no dia 16 de junho, em reunião que contou com a presença de poucos desportistas.
Foram eles, Aristeu Accioly Lins, Eduardo Lemos e Otávio Silveira, representantes do João de Barros Football Club; Bruno Burlini, Olinto Jácome e Severino Arruda, representantes do Centro Sportivo do Peres; Antônio Miranda, Joaquim Chaves e Herotides Xavier, representantes do Sport Club Flamengo; Alcindo Wanderley, representante do Santa Cruz Football Club, e João Ranulpho e Oswaldo Antunes, representantes do Agro Sport Club do Socorro.
Pouco adiantaria, assim, o apelo do jornal A Província, na sua edição do dia anterior, 15 de junho, na primeira página, quando divulgou o seguinte comunicado:
"LIGA PERNAMBUCANA DE FOOTBALL - Em sessão preparatória, reúne amanhã, às 18 horas, na estrada João de Barros, 19-A, a Liga Pernambucana de Football. A comissão organizadora encarece o comparecimento dos representantes de todos os clubes esportivos da capital".

COMISSÃO PROVISÓRIA

A reunião, organizada pelo João de Barros Football Club, conforme o anunciado, aconteceu na casa do desportista Aristeu Accioly Lins, tesoureiro da agremiação promotora.
Segundo o Jornal do Recife, na sua edição do dia 19 de junho, nessa reunião, por proposição de Eduardo Lemos, Aristeu foi aclamado presidente provisório da entidade, nomeando uma comissão relatora para a elaboração dos estatutos, na qual o representante do Santa Cruz, Alcino Wandereley, foi um dos integrantes.
Segundo Givanildo Alves, no livro História do Futebol em Pernambuco, no período de 25 de junho a 2 de julho, a entidade recém-fundada teve os seus estatutos aprovados, estabelecendo a mensalidade de 10 mil réis e a jóia de 50 mil réis para os clubes, além de admitir como novos filiados a Coligação Sportiva Recifense e o Torre. Com o posterior desligamento do Agro Sport Club do Socorro, ficaram definidas as condições para a realização do torneio da Liga, hoje considerado como o nosso primeiro campeonato estadual disputado.

A ESTRÉIA DO SANTA CRUZ

Sócio fundador da Liga, o Santa Cruz efetuou o jogo de abertura do torneio enfrentando e derrotando a Coligação Sportiva Recifense, por 1x0, na tarde do domingo, dia 1 de agosto, na Campina do Derby. O gol histórico, o primeiro do Santa Cruz numa competição oficial, foi marcado pelo atacante Mário Rodrigues. Segundo o Jornal Pequeno, o jogo foi apitado pelo competente sportman Getúlio Jácome.
O Santa Cruz voltaria a jogar pelo torneio da LSP no dia 5 de setembro, na Campina do Derby, enfrentando o Torre. O jogo foi apitado por Mr. Forster. Segundo o Diário de Pernambuco e o Jornal Pequeno, o Santa Cruz, nesse jogo, ainda atuou com as cores branca e preta. Portanto, provavelmente, esta foi a última partida em que o Santa Cruz teria se utilizado do uniforme original.
Vale salientar, ainda, que o jornal recifense O Tempo, na sua edição do dia 5 de setembro, dia do jogo, informou que o Santa Cruz enfrentaria a equipe do Torre com um uniforme nas cores preta, verde e branca.

O TRICOLOR ENTRA EM CENA

No dia 19 de setembro, o Santa Cruz voltaria a enfrentar o Flamengo na Campina do Derby. O jogo, válido pelo torneio da Liga, foi apitado por Mr. Forster. Provavelmente, este foi o primeiro jogo efetuado pelo clube com o novo padrão tricolor. Como ambos os clubes eram alvinegros, consta que houve um sorteio para definir qual o time que deveria mudar de padrão. O Santa Cruz perdeu e tornou-se tricolor.
No dia 10 de outubro, domingo, também na Campina do Derby, o Santa enfrentou o América, antigo João de Barros, ainda com Mr. Forster no apito.
Antes da interrupção do torneio para a excursão do América carioca à nossa capital, em novembro, o Santa Cruz ainda enfrentaria o Centro Sportivo do Peres, na Campina do Derby.

A HISTÓRIA DAS TRÊS CORES

Segundo o jornalista Givanildo Alves, no livro História do Futebol em Pernambuco, existem três versões para explicar a adição do vermelho às cores do Santa Cruz.
Segundo Luiz Gonzaga Uchôa Barbalho, um dos sócios fundadores, em depoimento dado ao jornalista, foi sua a idéia de intriduzir o vermelho nas cores do clube, a fim de que a bandeira do Santa Cruz ficasse parecida com a da Alemanha, país por quem simpatizava na Primeira Guerra Mundial.
Por seu lado, Teófilo Batista, o Lacraia, primeiro jogador negro do futebol pernambucano, também sócio fundador e criador do escudo do time, diz que foi sua a idéia de acrescentar o vermelho ao preto e branco de origem.
Ilo Just, goleiro e sócio fundador, afirmou textualmente no Fascículo 1, editado em 1969, sobre a história do Mais Querido: "Ainda estavámos em dúvida com respeito às cores, quando passou por aqui o Flamengo do Rio, que ia excursionar em Belém do Pará. Resolvemos nosso problema acrescentando o vermelho às nossas cores".

EXCURSÃO PIONEIRA

O América carioca chegou ao Recife no dia 10 de novembro, a bordo do navio São Paulo, que atracou no cais da avenida Martins de Barros. A delegação ficou hospedada no Hotel do Parque, o mais moderno e elegante da cidade. Nessa mesmo dia, uma quinta-feira, à tarde, no Campo do British Club, goleou por 5x1 um escrete formado por jogadores ingleses e pernambucanos. A equipe carioca ainda jogaria nos dia 13, 15 e 19 de novembro,sempre aplicando goleadas nos mistos e combinados enfrentados. Ao todo foram 4 jogos, com 4 vitórias, marcando 23 gols e sofrendo apenas seis.
A vinda do América à nossa capital fora acertada em agosto, quando da visita de Belfort Duarte, ex-jogador do time carioca e presidente da Comissão de Sports da Liga Metropolitana do Rio de Janeiro. Belfort, inclusive, no dia 22 de agosto, foi agraciado pelo João de Barros Football Club, em sessão solene, tendo recebido o título de Capitão Honorário. Nessa mesma reunião, a agremiação pernambucana passou a adotar o nome de América Football Club, em sua homenagem.

O TRIANGULAR FINAL

Com a visita pioneira do América carioca ao Recife, o torneio da Liga foi interrompido ao fim do primeiro turno. Finda a visita, com o retorno do América ao Rio de Janeiro, o torneio foi retomado.
Como Santa Cruz, Flamengo e Torre estivessem empatados na tabela e considerando a proximidade do final do ano, o presidente da Liga resolveu não mais realizar o segundo turno.
Foi determinado assim, que haveria uma série de partidas extras entre os clubes empatados, afim de que fosse conhecido o campeão. Ficou ainda estebelecido que nestes jogos finais haveria a cobrança de ingressos e a transferência dos jogos da Campina do Derby, local aberto, para o campo do British Club, que era fechado.
Assim, no dia 28 de novembro, Santa Cruz e Torre abriram o triangular final. Incentivado pela sua torcida, o Santa Cruz se impôs e goleou o madeira rubra por 5x0, gols de Alberto Campos (3), Dória e Pitota. Mais uma vez o juiz foi o inglês Mr. Forster. O Santa Cruz venceu com Ilo Just; Bibi e Crócia, Luiz Lima, Carvalho e Manoel; Jorge, Alberto Campos, Pitota, Mário e Dória. O Torre perdeu com Mário Pinto; Zé Luiz e Antunes; Reis, Austregésilo e Barroso; Barreto, Alano, Manoel Lopes, Gátis e Cleto.
No dia 5 de dezembro, o Santa Cruz voltou a campo para enfrentar o Flamengo. Apesar da grande torcida a seu favor, o tricolor não conseguiu reeditar a boa atuação contra o Torre e foi goleado por 6x2. Não consta na imprensa da época os autores dos gols da partida. Sabe-se apenas que no decorrer do jogo acirrado, foram expulsos Luiz Lima, do Santa Cruz e Lélis, do Flamengo.
A vitória deixou o Flamengo com o título na mão. O favoritismo foi confirmado no dia 11 de dezembro, quando o time do tenente Colares derrotou o Torre por 3x0, sagrando-se o primeiro campeão pernambucano de futebol.
Por ironia do destino, depois do título conquistado, o Flamengo transformou-se numa equipe medíocre que passou a sofrer goleadas históricas e humilhantes.


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