domingo, 25 de setembro de 2011

Henágio, o último boleiro assumidamente boêmio



HENÁGIO, O ÚLTIMO BOLEIRO ASSUMIDAMENTE BOÊMIO

Publicado no Jornal do Commercio, Recife, em 10.01.2010

Futebol é feito de ídolos. Muitos o torcedor não esquece. A partir de hoje, o JC publicará quinzenalmente uma reportagem com um jogador do passado. O primeiro é o boêmio Henágio, craque de Santa e Sport nos anos 80.

João de Andrade Neto

O sergipano Henágio Figueiredo dos Santos cravou seu nome na história do futebol pernambucano na década de 80 com muitos gols, dribles e passes precisos. Principalmente no Santa Cruz, pelo qual conquistou os estaduais de 1983 e 1987. Mas Henágio também se notabilizou pelo que fazia fora de campo. Boêmio assumido, o jogador nunca dispensou uma cervejinha, muito menos cigarros quando não estava em campo. Chegava a fumar quatro maços por dia quando ainda era jogador profissional.
Na última terça-feira, o ex-ídolo coral concedeu uma entrevista ao Jornal do Commercio e ao Blog do Torcedor. O local não poderia ser mais emblemático: um bar simples no bairro de Água Fria, Zona Norte do Recife. Regado a cerveja e moela de galinha como tira-gosto, o ex-jogador relembrou sua vida dentro e fora das quatro linhas. E esbanjando sinceridade foi enfático ao afirmar que a combinação entre álcool e futebol sempre existiu na vida de muitos jogadores profissionais. Até hoje.
“Comecei a beber e a fumar quando virei jogador. Era juvenil e o pessoal do profissional me mandava comprar cigarros e depois acender. Cheguei a fumar quatro maços por dia e, às vezes, também nos intervalos dos jogos. Com a cerveja foi a mesma coisa. Sempre bebi e nunca neguei. Só não bebia na concentração. Fim de semana e dia do jogo era sagrado para não beber”, garante.
“Uma vez foram dizer para um diretor que eu estava no pagode. No outro dia, antes do treino, esse diretor me perguntou quantas cervejas eu tinha bebido. Eu disse 10, mesmo só tendo bebido quatro. Costumo dizer que só bebe quem joga, porque resolve dentro de campo. Hoje acontece a mesma coisa. Jogador de futebol é tudo igual. Muda só o nome. Tem jogador que só toma uísque, outros que só tomam vodca. Isso é normal e nunca me atrapalhou”, garante.
Com ar de professor da boemia boleira, Henágio, no entanto, diz que para conseguir “sobreviver” conciliando as duas “atividades” é preciso saber separar os dois papéis. “Nunca fugi de uma concentração para beber. Agora se jogasse na quarta-feira, não tinha porque não ir para o bar após a partida. Dentro de campo, era jogador profissional. Fora dele, vivia minha vida normal, como qualquer pessoa. Mas vi muitos jogadores que tinham futuro se deixarem levar pelas más amizades e sucumbirem por não saberem separar isso”, recorda. “Muitos falam que a preparação física atual é bem mais exigente que a da minha época. Para mim, é tudo igual. Além do mais, hoje em dia é mais fácil ser jogador por causa dos empresários, que conseguem clubes para qualquer perna dura (jogador ruim). Antes não havia isso. Para um jogador ser contratado, precisava provar que era bom mesmo.”
E para quem ainda insiste em criticar o “estilo Henágio” de conviver com o futebol, o ex-jogador responde com bom humor. “Na minha época, a própria imprensa premiava o melhor jogador em campo com duas caixas de cerveja. Como queria que o cara não bebesse depois? Criticar depois é fácil”, relata.
Hoje, aos 48 anos, Henágio ganha a vida com uma escolinha de futebol em Aracaju. Apesar de ter atuado em grandes clubes como Guarani, Sport, Santa Cruz e Flamengo, onde chegou a ser apontado como substituto de Zico, o ex-ídolo de tricolores e rubro-negros não fez fortuna. Apesar de não passar por dificuldades financeiras, tem hoje uma vida simples. Mas se diz feliz e não se arrepende das escolhas tomadas.
“Se ganhasse 10, gastava 10. Se ganhasse 100, gastava 100. Cheguei a levar para casa três sacolas de supermercado cheias de dinheiro de uma premiação. Mas tudo acaba um dia. Não me arrependo de nada. Conheci o mundo sem gastar nada e ainda recebendo por isso jogando futebol. Hoje, enquanto tiver meu dinheirinho para tomar uma cervejinha com minha esposa, estou tranquilo”, encerra Henágio, antes de pedir a saideira.

Um comentário:

Anônimo disse...

E LAMENTÁVEL SORE TODOS OS ASPECTOS DO FUTEBOL QUE O GRANDE HENAGIO SE PERDEU NA VIDA E NA BOLA .