quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Perdendo de 5x1, Santa vira jogo e ganha de 7x5


Pitota

PERDENDO DE 5x1, SANTA VIRA JOGO E GANHA DE 7x5

Givanildo Alves

Ganhar de virada no futebol é coisa até natural. No entanto, num curto espaço der 15 minutos, um time tirar uma diferença de 4 gols, e ainda fazer mais 2, para vencer de 7x5, é um fato que não se tem notícia em toda a história do futebol pernambucano.
Este inédito acontecimento, esta virada tão sensacional, ocorreu no jogo Santa Cruz x América, no campo dos Aflitos, válido pelo campeonato de 1917, exatamente no dia 15 de abril. A partida chegou a ser ameaçada de não se realizar, em virtude do falecimento, na véspera, do influente sócio John Krause, um "americano" que estava sempre disposto a ajudar o América no que o clube precisasse. Pesaroso com a morte do prestimoso desportista, os jogadores fizeram um movimento para não irem a campo. A muito custo o clube conseguiu demovê-los da idéia, todavia fez publicar pelo jornal "A Província", a seguinte nota oficial:
"A diretoria faz ciente que não podendo adiar o match com o Santa Cruz, anunciado para hoje, devido a não prejudicar interesses de terceiros, e especialmente à Liga Sportiva Pernambucana, reprime o sentimento de pesar que a enluta pelo falecimento do seu distinto amigo e prestimoso consócio John Krause e, assim, dá as necessárias desculpas apresentadas pelos seus jogadores, parentes e amigos do ilustre consócio falecido. Ainda recomenda aos seus admiradores de evitarem aclamações que porventura venha a merecer, respeitando o sincero pesar do América Futebol Clube, que apenas satisfará um compromisso assumido".
Apesar da nota, a torcida do América se fez presente ao campo para ver o jovem Zetasso, que começara a despontar como uma das glórias do nosso futebol. os alviverdes iniciaram o jogo desenvolvendo um ritmo veloz e insinuante, mas quem terminou abrindo o escore foi o Santa Cruz. O América logo reagiu, empatou, botou mais um gol e em seguida mais dois, transformando o escore adverso de 1x0, numa vitória parcial de 4x1, resultado com que terminou o primeiro tempo.
Mal começou o segundo, o Santa Cruz sofreu mais outro tento. Ninguém tinha mais dúvidas do triunfo do América, e por uma elevada contagem. Alberto campos, que gostava de dar palpite no time, embora não fosse o "capitão", mandou Pitota trocar de posição com o ponta-direira Anísio. A modificação surtiu efeito e, como num passe de mágica, tudo começou a dar certo para os tricolores. Dois gols foram marcados num abrir e fechar de olhos. Em duas jogadas pessoais, Pitota consegue assinalar mais dois gols, alcançando desta maneira o incrível empate. O América se descontrolou e disso se aproveitou o Santa para assinalar mais dois tentos, ganhando o jogo de 7x5. O campo foi invadido e os jogadores do Santa Cruz carregados em triunfo pelos seus torcedores.
"A vitória", disse o Jornal Pequeno, no outro dia, "em si nada encerra de admirável, porém da forma pela qual ela foi obtida é um fato sem exemplo em nosso meio esportivo". O time do Santa Cruz, desse resultado sui generis, foi este: Ilo Just; Mangabeira e J. Silva; Zé de Castro, Teófilo e Manoel Pedro; Anísio, Pitota, Tiano, Alberto Campos e Américo. América: Jorge Tasso; Manta e Monteath; Cleofas, Rómulo e Zé Fernandes; Araújo, Percy, Zetasso, Karl e Arnaldo.
Sobre esse jogo há um fato curioso narrado ao autor deste livro pelo goleiro Ilo Just, do Santa Cruz. Contou-me ele que, quando estava se aproximando do final da partida, seu colega Zé de Castro virou-se para um torcedortricolor que estava atrás da barra do Santa e perguntou-lhe quantos minutos faltavam. O torcedor respondeu: "15 minutos". Nisso, Manta, zagueiro do América, gritou para Zé de Castro: "Essa nem Deus dá jeito, negro safado..." Quando acabou a partida, os jogadores do Santa Cruz correram para cima de Manta: "OLha aí... Deus deu jeito..."

Fonte: História do Futebol em Pernambuco - Capítulo 15, Diário de Pernambuco, Recife, segunda-feira, 17/7/1995.


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