quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Santa interna Papeira e King com febre tifo



O Santa Cruz entra em campo, em Belém

SANTA INTERNA PAPEIRA E KING COM FEBRE TIFO

Givanildo Alves

Deixando Manaus rumo a Belém, onde a delegação tomaria um navio do Lóide com destino ao Recife, King e Papeira pioraram no percurso. A médica de bordo cuidou dos enfermos com muita dedicação. Alimentação especial aos mesmos. No terceiro dia de viagem (o "gaiola" parava de 6 em 6 horas nos pequenos portos para se abastecer de lenha, carregada nas costas pelos nativos), papeira e King pioravam sensivelmente. A médica de bordo informou que os dois jogadores estavam com "tersã maligna", moléstia característica do Amazonas, da mesma família do tifo.
Quando o navio acostou no ancoradouro de Belém, a presidência da embaixada tratou de hospitalizar os dois enfermos na Beneficência Portuguesa, como pensionistas. O Lóide Brasileiro tinha reservadas dezoito passagens de primeira classe. A delegação pediu preferência no primeiro paquete que demandasse ao Sul e tocasse no porto do Recife. Durante a estada em Belém, sem contrato de jogos, todas as despesas seriam por conta do Santa Cruz. Éramos então quinze pessoas, porque Omar, Pelado e Sidinho, que estavam de contrato encerrado, decidiram vestir a camisa de um clube amazonense. Como presidente da delegação, Aristófanes Trindade entrou em contato com a diretoria do clube do Remo, que pôs a à disposição sua garagem náutica, a fim de que a delegação pudesse ficar alojada até o dia do embarque. Durante essa estada, o Santa Cruz realizaria jogos amistosos à base de 50% da renda líquida, o que se constituía um grande negócio para os locais.
A presidência da embaixada, dirigindo toda a equipe, com a ajuda de Palmeira, que lutava também para que nada faltasse aos jogadores (salários, refeições, alojamento), teve um problema a enfrentar. Pedrinho havia sido preso. Telegrama de Manaus, ao chefe de Polícia de Belém, dava conta de que o zagueiro havia "feito mal" a uma moça de 17 anos, e rumo a Belém, para levar o jogador preso, chegaria o diretor de um dos grandes clubes amazonenses.
Aristófanes entrou em contato com o sr. Gueiros, chefe de Polícia, pernambucano, descendente de uma das mais tradicionais famílias de Garanhuns, que prometeu libertar o jogador se o mesmo assumisse a responsabilidade de se casar com a moça ofendida. Pedrinho iria jogar no dia seguinte contra um dos grandes clubes locais. Na prisão, Pedrinho negou o fato que lhe era imputado. Queriam que ele ficasse em Manaus com Pelado, Sidinho e Omar, e o único meio de prendê-lo era aquele. "Aconselhei-o - disse Aristófanes - a "prometer" se casar". Pedrinho disse que tiraria cem anos de cadeia, mas não ria confessar um crime que não cometera, pois nem sequer tivera namorada durante a estada em Manaus. "Confesse, diga que vai casar, porque casamento não vai haver. Não pergunte como, mas tudo sairá bem se fizer isto", explicou o chefe da delegação.
Estávamos no sábado, dia do jogo, e Pedrinho foi à Central de Polícia, por ordem do sr. Gueiros, acompanhado do presidente da delegação e declarou que estava disposto a casar com a menor. Foi imediatamente posto em liberdade, tendo o presidente da embaixada, Aristófanes, se responsabiliado em levá-lo de volta, na terça-feira, às 15h. O zagueiro deveria comparecer à Central de Polícia, a fim de viajar a Manaus, em companhia de um agente. Antes e depois do jogo, Pedrinho conversou tranquilamente com Aristófanes. Ao jogador foi dado o nome da jovem, idade, filiação e demais características fornecidas pela polícia amazonense para prender o sedutor da menor. Na terça-feira, precisamente às 15 h, o chefe da delegação compareceu à Central de Polícia sem Pedrinho, mas em companhia de Palmeira. Lá estava o diretor do clube amazonense. Dr. Gueiros perguntou de súbito: "E o rapaz?". "Está aqui", respondeu Aristófanes, ao mesmo tempo em que entregava uma procuração autorizando Pelado a se casar com a menor fulana de tal, em face da lei tal, em seu nome. O diretor do clube amazonense quis ficar brabo, mas o chefe de Polícia declarou que estava tudo certo. O casamento por procuração substituía a presença de um dos nubentes. A esse tempo Pedrinho assinava carta dirigida a Pelado, pedindo-lhe que comparecesse ao cartório para ultimar a cerimônia. O fato é que a jovem ofendida não apareceu até hoje.

Fonte: História do Futebol em Pernambuco, Diário de Pernambuco, Recife, quinta-feira, 24/8/1995.


2 comentários:

Sileiman Kalil Botelho disse...

Nosso Santa é mesmo um repositório de histórias recheiadas de fatos a torná-lo um monumento talvez único no futebol brasileiro!!!

Esc>Jordão Emereciano-Trav G&E disse...

Só para esclarecer.
Conversas em família...
Sidinho I, ficou em Manaus por conta de uma paixão por uma formosa amazonense.