sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Morte de King e Papeira consterna time tricolor


Uma das poucas fotografias conhecidas da excursão suicida

MORTE DE KING E PAPEIRA CONSTERNA TIME TRICOLOR

Givanildo Alves

Solucionado o problema Pedrinho, havia os de King e Papeira. As rendas excassas davam apenas para as diárias de alimentação da embaixada e respectivos salários. As despesas do tratamento também pesavam na balança. Os jogadores prontificaram-se a colaborar e abriram mãos dos bichos, querim receber apenas os salários e a diária das refeições. Sabiam dos grandes problemas que todos estavam enfrentando, sem poder sair de Belém, King e Papeira pioravam dia a dia. Na tarde de 3 de março, o Santa Cruz jogava com o Remo, em revanche e saiu de campo com uma sensacional vitória de 4x2. No dia seguinte King morria no hospital da Beneficência Portuguesa. Seu corpo ficou em câmera ardente no salão nobre da Federação Paraense e teve enterro de luxo. Mais de 50 carros formaram o cortejo.
No dia 10 de março, a revanche com o campeão, o Paissandu. O jogo terminou empatado em 1x1, tento de Guaberinha para o Santa Cruz. Papeira, exatamente às 16h30 era cadáver e a essa hora o quadro estava jogando. Não poderia haver outra alternativa. O time não poderia viajar, por falta de autorização das autoridades navais. Teria de sustentar a si mesmo e somente poderia fazê-lo jogando. E, sem contrato de jogos, tinha de se submeter às propostas que lhe eram feitas.
Finalmente, nos últimos dias de março, o Lóide Brasileiro tinha um navio para o Sul. Os jogadores reuniram-se com o presidente da embaixada e propuseram passagens de terceira classe, ao invés de primeira. A diferença ficaria em seu favor. Aceita a proposta, os resultados foram positivos. A delegação regressaria de terceira classe. Palmeira e Aristófanes ficaram solidários com os atletas. Quando partiu de Belém, integrando um comboio de três navios, rumo a São Luís, nada menos de 18 ladrões haviam sido deportados pela polícia paraense. O comissário de bordo preveniu a delegeção e nada menos de 15 taças conquistadas nos campos do Extremo Norte foram cuidadosamente guardadas pelo comandante do barco. Dormia-se lado a lado com os ladrões deportados, que levavam uma vantagem: não estavam armados, ao contrário dos pernambucanos. Tendo deixado Pelado, Omar e Sidinho, o Santa Cruz trouxe Carapanã, moço de uma família muito boa, que vinha tentar o profissionalismo no Recife. Era um bom meia-esquerda, dono de excelente poder de penetração. O Santa Cruz deixou a capital paraense, rumo a São Luís, com apenas 12 jogadores, incluindo Carapanã, como se vê: Eutímio, Pedrinho, Sidinho II, Zé Maria, Capuco, Amaro, Guabeirinha, Edesio, Limoeiro, França, Pinhegas e Carapanã.
Em São Luís, nova demora do navio, que somente deixaria o ancoradouro em comboio. Os navios não atracavam. Ficavam lá fora do cais. Vinha-se à terra de lancha. Aristófanes foi à cidade e deixou um amigo, diretor da entidade maranhense, encarregado de conseguir amistosos durante nossa estada ali na base de 50%. Tudo que se arrecadasse seria dos jogadores, reservando-se um percentual para as despesas eventuais. Num desses jogos, Capuco e Edesio se machucaram, ficando a equipe reduzida a dez jogadores. No prélio contra o Moto Clube, o cozinheiro do navio, que quando menino jogara no juvenil do Vasco da Gama, entrou em lugar de Capuco. Estava totalmente fora de forma, mas deu certo. Era o que se pode chamar de caceteiro. Jogo tumultuadíssimo, com duas tentativas de invasão de campo. O time pernambucano, a despeito de ter um centro-médio que desconhecia, era um quadro homogêneo, lutador, raçudo. Felizmente, tudo ficou em paz.

Fonte: História do Futebol em Pernambuco - Capítulo 54, Diário de Pernambuco, Recife, sexta-feira, 25/8/1995


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