sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Submarino alemão tenta afundar navio do Santa



SUBMARINO ALEMÃO TENTA AFUNDAR NAVIO DO SANTA

Givanildo Alves

Estava o Santa às vésperas de outro jogo, quando a presidência da delegação foi informada pelo comandante do navio, que o mesmo seguiria naquela madrugada rumo ao Sul. Às 22 horas, todos estavam a bordo. O barco saiu rumo a Fortaleza integrando um comboio, protegido por navios da Armada. Deixou o porto de São Luís, presumivelmente às 23 horas.
No dia seguinte ao alvorecer, desabou tremendo temporal. De imediato, sentiu-se que o navio estava voltando, ziguezagueando em pleno mar. Ouviam-se os silvos estridentes dos navios do comboio, sob intenso nevoeiro. Às 9 horas, o navio entrava novamente no porto de São Luís, quando se teve a notícia: o radar acusara a presença de submarino.
A notícia deixou todos em pânico e nervosos. A vontade de voltar para casa apertava dia-a-dia, mas o pavor de morrer em pleno oceano deixava todos atemorizados. Por isso, assim que o barco ancorou em São Luís, os jogadores pediram para deixar o navio. Somente regressariam por terra. Nunca se saberia quando se poderia sair dali, com problema do comboio e submarino. Perderam-se as passagens. A embaixada alojou-se num hotal por 24 horas, a fim de viajar para Terezina, de trem, o que terminou acontecendo.
De São Luís a Terezina, a viagem foi cansativa e cheia de incidentes. O trem descarrilou duas vezes, porém sem graves consequências para os passageiros. Um dia inteiro de viagem, sob calor intenso. Anteriormente, Aristófanes, presidente da embaixada suicida, como ficou sendo conhecida por onde passava, havia telegrafado ao presidente da Federação Piauiense, pleiteando a realização de um ou três jogos. A recepção em Terezina foi excepcional. Grande acolhida do povo, o que motivou uma boa renda, dividida irmamente.
De Terezina, a delegação seguiu de ônibus para Fortaleza. A essa altura todos os clubes faziam questão de jogar com os tricolores pernambucanos. O sofrimento nosso era atração para eles. Capuco havia se restabelecido e Edesio voltava a ter condições de jogo. Apesar dos pesares, todos estavam satisfeitos porque o salário estava em dia e os bichos eram pagos na hora. Os jogos em Fortaleza marcaram a última etapa da atribulada excursão, que já se prolongava por quatro meses, a mais longa de toda a história esportiva de Pernambuco.
Ainda viajando de ônibus, a delegação rumou para o Recife. A chegada em casa foi emocionante. A direção do Santa Cruz recebeu seus atletas em sessão informal e solene a um só tempo, tomando conhecimento do relatório apresentado pelo presidente da embaixada. Todas as luvas atrasadas, inclusive a dos jogadores que não viajaram, havia sido pagas, e os atletas que se agregaram à embaixada foram pagos. O Santa Cruz não deixava dívidas de quaisquer espécie, a não ser as de gratidão aos paraenses. "Aquela rapaziada deixou seu nome na história, pelo espírito de unidade, honra, coragem, amor próprio e dignidade, concluiu Aristófanes Trindade, presidente da embaixada suicida.
Em depoimento ao autor a este autor, Guaberinha disse ter havido um fato que todos os jogadores consideraram muito importante. Foi quando o Santa Cruz chegou a São Luís, procedente de Belém e de regresso ao Recife. A mala com os pertences do goleiro King, seus colegas a traziam com o máximo de cuidado para entregá-la à família do falecido goleiro. Quando desciam pela escadaria do navio, aconteceu de a mala de King escapulir das mãos de um jogador e cair no mar, sendo levada pela correnteza no sentido de volta a Belém, onde King falecera.

Fonte: História do Futebol em Pernambuco - Capítulo 55. Givanildo Alves. Diário de Pernambuco, Recife, sábado, 26/8/1995


Um comentário:

Esc>Jordão Emereciano-Trav G&E disse...

O saudoso Sidinho I nunca mais voltou as nossas terras, criando raízes no Amazonas.