quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Santa é suspenso e fica afastado do título de 48



SANTA É SUSPENSO E FICA AFASTADO DO TÍTULO DE 48


Givanildo Alves

Campeonato de 1948. O América tinha ganho o 1º turno, enquanto Santa Cruz e Náutico brigavam pela conquista do 2º. Nos Aflitos, no dia 15 de agosto, tricolores e alvirrubros se defrontavam numa partida de vida ou morte. Jogo quente. Rubinho, centro médio tricolor, pulou para cortar de cabeça um ataque do Náutico. Com ele, subiu Zezinho, que meteu o cotovelo na cara do jogador do Santa. O filete de sangue começa a escorrer pelo rosto de Rubinho, que cai, desacordado. termina o 1º tempo. Nas vestiárias tricolores, os dirigentes corais pedem pelo amor de Deus a Rubinho que não revidasse. "Deixa isso pra lá", aconselharam apreensivos.
Todos temiam uma reação de Rubinho. "Rubem Pezão", como era conhecido por causa do tamanho do seu pé. Ele calçava 44 bico largo. Investigador de polícia, jamais dispensava, além do revólver, uma faca-peixeira de 14 polegadas na cinta, e lá no clube Banhistas, no Pina, onde morava, estava acostumado a dar na cara de quem se metesse a besta. Era preciso, pois, acalmar a fera...
Rubinho jogou todo o 2º tempo sem tocar em Zezinho, indo só na bola. Entrava de leve, como jogo de moça. Zezinho, por sua vez, sentia que alguma coisa estava para acontecer e, por isso, mantinha uma prudente distância do valente centromédio tricolor. Foi o juiz encerrando o encontro (vitória do Náutico por 3x2) e Zezinho dando o maior pique para junto de Osvaldo Salsa, presidente da Federação, que assistia ao jogo em companhia de Eudes Costa, chefe de Polícia. Mas antes de chegar perto das autoridades, Zezinho foi alcançado por Rubinho. Foi um tabefe só. O jogador do Náutico caiu com a cara no chão. Osvaldo Salsa, que além de presidente da entidade era também alvirrubro, ficou revoltado. "Ele nem sequer respeitou seu superior hierárquico", dizia, referindo-se à presença, ali pertinho dele, do Chefe de Polícia da Capital. "Vou puní-lo severamente amanhã", disse Salsa aos dirigentes do Santa, que tentavam abafar o incidente.
Rubinho foi punido com 180 dias de suspensão. O Santa Cruz ficou em pé de guerra contra a Federação. "Ele só fez isso porque é do Náutico, comentavam os torcedores tricolores. Uma reunião foi imediatamente convocada para uma tomada de posição pela cúpula do Santa, que deu um ultimato à Federação: ou retira a suspensão, ou o clube se afasta do campeonato. O Sport ficou solidário com os tricolores e o caldo engrossou, mas Osvaldo Salsa não recuou. O campeonato entrava assim em mais outro colapso.
No dia 20 de agosto, os dirigentes se reúnem no Palácio das Princesas, com a presença do Chefe do Executivo, dr. Barbosa Lima Sobrinho, para, numa mesa redonda, tentarem a pacificação nos esportes pernambucanos. Ficou decidido que o presidente da Federação suspenderia o campeonato, durante 15 dias, tempo considerado razoável para o santa reorganizar sua equipe, já que sem Rubinho e Pereira, o primeiro suspenso e o último doente, o clube tricolor não teria mais condições de brigar pelo título. O próximo jogo do Santa Cruz, que seria contra o Íbis, ficava assim fixado para o dia 5 de setembro, conforme fora acordado.
Assentada a poeira levantada pela confusão, Salsa, que estava meio adoentado, pediu licença da entidade e foi repousar em João Pessoa. Assumiu o vice, Cardoso da Silva, conceituado médico frecifense e que não escondia de ninguém sua condição de tricolor. Foi ele assumindo o cargo e logo sendo pressionado para baixar um ato transferindo o reaparecimento tricolor do dia 5 para 12 de setembro. O ato foi baixado.
Quando Salsa tomou conhecimento, veio às pressas de João Pessoa e reassumiu a presidência. À imprensa divulgou nota oficial repudiando a medida tomada pelo seu vice e tornando o ato sem efeito. O Santa Cruz não só deixou de ir à campo como também mandou um desaforado ofício à Federação considerando-se licenciado enquanto Salsa fosse presidente.
A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) apoiou a decisão de sua filiada, suspendendo o Santa Cruz por 60 dias, exatamente o período que faltava para Salsa deixar a FPD.

Fonte: História do Futebol em Pernambuco - Capítulo 60. Givanildo Alves, Diário de Pernambuco, Recife, quinta-feira, 31/8/1995.


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