sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Mancuso no Santa Cruz



MANCUSO NO SANTA CRUZ

Lucas Liausu

"Como estão aqueles loucos?", perguntou Mancuso. A torcida tricolor foi o que mais marcou o argentino em sua histórica passagem pelo Santa Cruz, 15 anos atrás. No último domingo, o ex-volante recebeu a reportagem do GloboEsporte.com/pe, em Natal, onde disputou um amistoso de masters entre Brasil e Argentina, na Arena das Dunas, e relembrou com saudosismo do período que permaneceu no Recife, em 1999.
Na época com 29 anos, ele desembarcou na capital pernambucana após encerrar o vínculo com o Badajoz, da Espanha. A negociação, intermediada pelo então presidente tricolor, Jonas Alvarenga, tinha como primeiro objetivo aumentar o número de sócios do clube. O dirigente chegou a chamar o projeto de "Barcelona do Nordeste".
Mancuso não esquece da estreia em um jogo oficial com a camisa tricolor: mais de 80 mil torcedores viram Santa Cruz e Sport empatarem em 1 a 1, no Arruda, pelo Campeonato Pernambuco. Desde o trajeto do ônibus até o estádio, a multidão mexeu com quem já não esperava mais surpresas àquela altura da carreira, depois de defender seleção argentina e clubes como Boca Juniors, Flamengo e Palmeiras.
- Quando cheguei no Santa Cruz, vi que era uma loucura. Joguei no Boca Juniors, no Flamengo, no Palmeiras e na seleção argentina, mas a torcida do Santa Cruz é a melhor que eu já tive na minha carreira. Foi incrível. Lembro bem da minha estreia contra o Sport. Eram 80 mil pessoas no Arruda. Quando a gente chegou no estádio eu fiquei impressionado. Depois de passar pelo Boca Juniors e de jogar com o Flamengo no Maracanã, eu achava que não teria outra emoção no futebol. Achei que tinha acabado, mas quando cheguei lá vi aquela loucura. E adorei.
 Além do Santa Cruz, Mancuso tem boas lembranças do Recife. Mesmo sem ter pisado na cidade nenhuma vez desde que saiu do Tricolor, ainda tem na ponta da língua os principais pontos turísticos.
- Fui muito feliz no Recife. Eu morava na beira-mar. Era muito bom. A minha família também gostava muito. Além disso, os torcedores de Sport e Náutico me respeitavam. Sempre que saía na rua eles me pediam para mudar para o time deles. Fui um jogador de muita raça e isso acaba deixando os rivais irritados, mas no Recife não aconteceu. Todo mundo me respeitava.


CONSELHOS DE RIVALDO PARA ACERTAR COM O SANTA

Ao ser procurado por um empresário brasileiro com a proposta do Santa Cruz, o volante precisou recorrer aos amigos para começar a negociar.
- Eu estava jogando na Espanha e quando voltei para Buenos Aires um empresário brasileiro me procurou e falou do Santa Cruz. Confesso que na hora eu não conhecia, mas depois comecei a perguntar a pessoas que eu conhecia e jogadores que eu tinha jogado no Palmeiras e no Flamengo.

 E o principal responsável pela ida de Mancuso para o Arruda acabou sendo o meia Rivaldo. Revelado pelo Santa, ele estava jogando pelo Barcelona em 1999, mas foi companheiro de Mancuso três anos antes no Palmeiras.
- Perguntei ao Rivaldo o que ele achava e as referências foram muito boas. Acabei fechando e fui muito feliz. A primeira coisa que ele me falou foi que o futebol talvez não fosse o do Rio de Janeiro e o de São Paulo, mas disse que a torcida era muito boa e que eu gostaria. No final deu tudo certo e eu fui muito feliz.


 SAÍDA DE AMIGÁVEL, APESAR DOS SALÁRIOS ATRASADOS

A passagem pelo Arruda, a princípio, deveria durar pelo menos um ano. No entanto, foi abreviada por conta de um problema que, 15 anos depois, continua a tirar o sono dos tricolores. Sem receber salários, o jogador começou a reclamar da situação via imprensa e acabou sendo afastado do elenco. Logo depois, acertou a saída. Mancuso defendeu o Santa Cruz de fevereiro a setembro de 1999. Foi vice-campeão pernambucano, no ano do primeiro tetra do Sport. Chegou a disputar parte da Série B, mas saiu antes da reação que culminou no acesso coral à Primeira Divisão.

- Cheguei a ficar três ou quatro meses sem receber salários. Aguentei até onde podia. Eu jogava com muita vontade de honrar aquela camisa e acabava superando a necessidade de receber o salário. A minha preocupação não era essa. Acho que se o dirigente fala que não está pagando, até podemos resolver, mas quando ninguém fala, você continua treinando, a pressão de jogar num time de massa aumenta e aí fica muito complicado.

QUEDA PARA A SÉRIE D NÃO TEM EXPLICAÇÃO

Depois da saída de Mancuso, o Santa Cruz passou seis anos entre a Primeira e a Segunda Divisão, até que em 2007, o Tricolor despencou em queda livre até parar na Série D. O histórico negativo impressionou o jogador, que não consegue entender os motivos para um declínio tão brusco.
- É difícil de acreditar. Eu sempre procuro saber sobre o Santa Cruz e falo para os meus colegas que para mim é um time que deve estar na Primeira Divisão. Com a torcida que tem e aquele estádio lindo, basta montar um time com pegada firme e um bom pé que chega. O Santa Cruz tem que estar numa posição tipo o Sport. Por que o Sport é muito mais do que o Santa? O que tem a mais? Apenas se organizou.


Fonte: Globo Esporte, em 25/11/2014

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