quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Sala de troféus do Santa Cruz guarda uma história de títulos surpreendentes


SALA DE TROFÉUS DO SANTA CRUZ GUARDA UMA HISTÓRIA DE TÍTULOS SURPREENDENTES

Tiago Medeiros

Há três décadas, Dirceu Paiva é o guardião da memória tricolor. Aos 82 anos, ele supervisiona tudo o que diz respeito à sala de troféus do clube. Todas as taças conquistadas ao longo dos anos estão sendo catalogadas por ele. Com cem anos de conquistas, ele tem muito trabalho a fazer. E muitas histórias para contar.
Uma delas, aconteceu há 56 anos, quando o Santa Cruz conquistou o título pernambucano de 1957. Taça que só foi levantada em 1958. Pela primeira vez, três times estavam na final do estadual, o que foi chamado pela imprensa de “supercampeonato”.
- Em 57, com a chegada de Alfredo Gonzalez (técnico em 57), nós fizemos um time muito bom. Ganhamos o último turno e partimos para o supercampeonato. O Náutico ganhou um e o Sport outro. Vencemos o Náutico nos Aflitos por 3 a 0 e depois vencemos o Sport na Ilha por três a dois. Nós éramos sempre campeões na casa do vizinho, fazendo festejos. Um time que se consagrou e qualquer tricolor escala sem pensar. Aníbal, Diogo e Sidney, Zequinha Aldemar e Edinho, Lanzoninho, Faustino, Rudimar, Mituca e Jorginho.
No Diário da Noite, em 17 de março de 58, a história desse título foi contada assim:
“Nervos frios e completo domínio da pelota, outras facetas dos defensores do mais querido. E mal esquentava o jogo, Rudimar inaugurava o marcador com um gol de cinema. Inesperado, até. Saltou nos limites da área para escorar um escanteio e aninhou a pelota no gol de Manga. Mituca estava ajudando sua defesa e lançou uma bola em profundidade para Lanzoninho. O ponteiro disparou perseguido por Osmar e, ao levar vantagem dentro da área, foi aterrado. Penalidade indiscutível e que, cobrada por Aldemar, serviu para consolidar a vantagem inicial. Na fase final do encontro, exatamente quando decorria um minuto, Mituca elevou a contagem para três.”
O Sport ainda chegou aos três a dois e o goleiro tricolor Aníbal evitou o empate ao defender uma bicicleta do meio-campo rubro-negro Carlos Alberto. Foi o fim da espera. O oitavo título tricolor, o “campeão Sputinik” em homenagem ao satélite lançado ao espaço pela então União Soviética.
- O Recife tinha vivido o carnaval de fevereiro e trouxe o carnaval para março. Foi o primeiro grande título do Santa Cruz. Foi uma apoteose em tudo - Conta o ex-presidente Rodolfo Aguiar.
A partir daí, festa virou rotina no clube que chegou a conquistar oito títulos em uma dez anos. Entre eles, o pentacampeonato, de 69 a 73. Já os anos 80 não foram tão generosos. Mas os milagres de um camisa 1, garantiram ao Mais Querido, dois feitos inesquecíveis.
- Pediram para eu escalar a seleção dos cem anos e eu comecei logo com Birigui. Birigui tinha essa tradição. A turma ficava enlouquecida. Meus amigos rubro-negros diziam: “Esse cara só pega bola contra a gente” – lembrou o ex-presidente Zé Neves.
Em uma decisão contra o Sport, na Ilha, o goleiro foi protagonista. Em 1986, lacrou a meta coral e garantiu o zero a zero que levou o troféu para o Arruda. Um jogo que ficou imortalizado por um gesto: O então presidente, Zé Neves, fincou a bandeira tricolor na Ilha do Retiro.
- Quando acabou o jogo, o coronel do batalhão de choque da época fez uma meia-lua e deixou a gente comemorar ali. E, de repente, um torcedor passou, por um buraco do alambrado, uma bandeira. Não foi nada estudado, nada programado, foi um negócio espontâneo, me lembrou
A chateação rubro-negro continuou no ano seguinte. O Sport precisava vencer o jogo para decidir o título em uma melhor de três. Mas encontrou mais uma vez o goleiro Birigui como obstáculo. A sorte também esteve do lado tricolor. A trave jogou junto e teve gol contra o Sport e Bicampeonato Pernambucano, de novo na Ilha.

Um título improvável e inesquecível

 
Seis anos depois, a vitória sobre o que parecia impossível. Arruda, 28 de julho de noventa e três: Mais de setenta mil testemunhas de um jogo que ficou para sempre. Aos 12 minutos do primeiro tempo, Santa Cruz já estava com um a menos. Washington, artilheiro do estadual daquele ano, acertou o alvirrubro Lúcio Surubim por trás e levou o vermelho. E o Náutico ainda saiu na frente no primeiro tempo, com Paulo Leme, numa vacilada do goleiro tricolor Marcelo Martelotte.
Na torcida do Santa, a fé desapareceu e muitos torcedores foram embora enquanto que na arquibancada do Náutico não havia dúvidas do título. Mas, de repente, Fernando apareceu.
- Eu fiquei na frente do goleiro Paraíba e ele era um goleiro de altura muito boa, de não levar gols, e eu só tinha a opção de driblá-lo. Driblei e empatei o jogo . Não vimos a torcida sair. Mas com certeza vimos a torcida voltar. Foi quando começou a cantar novamente, nos incentivar- recorda o ex-meia tricolor.
O que era esperança se transformou em história, em uma infelicidade do zagueiro Parreira, do Náutico, que deu uma “furada”, em um lance capital, que terminou no gol de Célio, que levou a decisão para a prorrogação.
- Meu amigo, quando Parreira mergulhou na água, que a bola passou pela cabeça e passou por debaixo das pernas dele e Célio só deu uma ”lapada”, descemos e ficamos no vestiário. Chegamos junto do grupo dizendo “não tem mais jogo, só tem mais meia-hora”, mas eu confesso que não vimos o jogo. Ficamos no vestiário sem ouvir rádio, nem nada – Admite Zé Neves.
Após o zero a zero na prorrogação, a conquista, que jamais será esquecida. De lá para cá, cinco estaduais, um Brasileiro da Série C e a galeria de troféus só cresce. No Bicentenário, vai sobrar trabalho para quem estiver por lá.


Fonte: Globo Esporte, 04/02/2014

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