sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Maurício Pantera: de artilheiro a porteiro



MAURÍCIO PANTERA: DE ARTILHEIRO A PORTEIRO

Tiago Medeiros

Alcir é um cara de sorte, não espera além das 7h para largar do serviço. O colega que lhe rende costuma sempre chegar antes do começo do expediente. É sempre assim, ele o atualiza dos acontecimentos, passa o que tem de ser feito e se despede: ‘’Valeu, meu artilheiro”.
Alcir não está agradando o companheiro, mas, sim, exaltando uma verdade. Debaixo daquela farda azul, está um dos grandes nomes revelados na história recente do Santa Cruz: Maurício Leandrino da Silva, que em campo recebeu um apelido que virou um sobrenome: Pantera. Das 7h às 19h quem dá as ordens na portaria do edifício Luar do Sítio é o ex-atacante coral.
Nascido e criado no Alto José Bonifácio, bairro com aproximadamente 13 mil habitantes, na Zona Norte do Recife, Maurício sempre teve duas paixões, o futebol e o Santa Cruz.
- Sou Tricolor e sempre ia ao Arruda com meu tio. Via Zé do Carmo jogando e sempre dizia a ele que um dia estaria lá dentro. Pouco tempo depois, BOOM! Tava lá treinando ao lado de Zé do Carmo.
Destaque nas peladas do Alto José Bonifácio, Maurício era o centroavante da escola pública Caio Pereira. Em um jogo amistoso contra o juvenil do Santa, marcou o gol da vitória do time da comunidade. O desempenho chamou a atenção da comissão técnica tricolor e dias depois ele já treinava na base do clube, onde não demorou a se destacar. Como já havia um Maurício no elenco, recebeu o apelido de Pantera.
- Tinham dois Maurícios, um branco e eu, negão. Aí começaram a me chamar de Pantera.
Em 1995 fez 24 gols pela base e iniciou a temporada de 1996 marcando quatro gols na Copa São Paulo de Futebol Júnior, foi artilheiro do time na competição e passou a treinar com os profissionais, promovido pelo então técnico Péricles Chamusca. Pantera fez alguns jogos, mas só veio a deslanchar com a chegada de Abel Braga, que substituiu Chamusca.
- Ali foi um pai pra mim. Me chamou, disse que ia me utilizar e que eu jogasse meu futebol sossegado.

Gols e assédio do Sport


Foram 13 gols naquele Estadual, em que o Santa terminou com o vice-campeonato, sendo batido pelo Sport na decisão. Na Série B, mais 13 gols, goleador tricolor na competição. O bom momento de Pantera em campo não era acompanhando pelo restante do time. O Santa acabou eliminado e o Sport procurou a diretoria tricolor para contratar o atacante por empréstimo até o fim da Série A.
- Por causa da rivalidade, não deixaram. Seria importante até para me valorizar mais, mas não aceitaram. Na minha opinião, eles (direção do Santa Cruz) foram burros.

La Liga e bronca com o Santa Cruz


O passatempo preferido de Maurício nas férias de 1996 era assistir televisão. Na tela, aquela que era a maior Liga de Futebol do Mundo, a Espanhola. Conhecia somente os famosos Real Madrid e Barcelona. Os outros clubes eram desconhecidos para Pantera e o público em geral, estamos falando de um passado não muito distante, mas onde a internet não estava ao alcance de todos. Esparramado no sofá, Pantera recebeu uma ligação. Do outro lado da linha estava Marcos Soares, ex-supervisor do Santa Cruz.
- Ele me disse para trocar de roupa e ir com ele na Polícia Federal. Mas eu não tinha roubado ninguém, disse isso a ele. Era para tirar meu passaporte, porque eu ia viajar para a Europa. Num dia eu estava assistindo ao Campeonato Espanhol e no outro fui contratado pelo Compostela com sete anos de contrato.
Pantera foi vendido por R$1,3 milhão, até hoje é a segunda maior negociação feita pelo Santa Cruz, atrás apenas do atacante Gilberto, que fora vendido ao Internacional, em 2011, por R$ 2 milhões. Maurício acusa o Santa Cruz de não ter lhe repassado o valor correto que tinha direito na venda, 10%.
- Era para eles terem me dado R$130 mil reais, mas só recebi R$ 30 mil.

Boas vindas do Fenômeno


Na Espanha jogou contra grandes nomes do futebol: Rivaldo, Guardiola, Simeone, Hierro e recebeu as ‘’boas vindas’’ daquele que era o melhor jogador do mundo, Ronaldo Fenômeno.
- Minha estreia foi no dia 12 de outubro de 1996, num jogo contra o Barcelona, aquele que Ronaldo passou por todo mundo e fez o gol. Quando ele começou a correr, todo mundo gritava: ‘Pega! Pega!’ Vai pegar como? Eu estava no banco e fiquei de boca aberta. Quando virei, meu técnico, os outros jogadores estavam se olhando sem acreditar. Tive a chance de enfrentar o Barcelona no Camp Nou e troquei uma ideia com ele (Ronaldo), disse que ele era fera demais. Cara simples, gente boa.
O Barcelona venceu aquele jogo por 5 a 1, mas o Real Madrid acabou campeão e Ronaldo terminou a competição como artilheiro, com 34 gols.

Volta ao Brasil e casaca virada


Maurício não teve um bom começo na Espanha. Não se adaptou ao frio e a direção do Compostela decidiu dar mais rodagem ao atacante e o emprestou ao Grêmio, que tinha acabado de ser campeão brasileiro e buscava um novo camisa 9 para substituir Jardel.
- Cheguei com um peso muito grande nas costas, mas consegui fazer uns golzinhos. Foram nove no campeonato gaúcho e depois perdi espaço.
Maurício ia ser devolvido ao Compostela quando surgiu o convite para voltar ao Recife, mas para jogar no Sport.
- Te digo, como tricolor, gostei de jogar no Sport. Peguei um timaço.
Foi campeão pernambucano e vice-artilheiro com 11 gols, um a menos que Leniton, do Porto. No Rubro-negro, Maurício conviveu com lesões e problemas extracampo.
- Subiu para cabeça. Gostava de festas, sair, namorar... quem não gosta?
Perdeu espaço, não renovou contrato para a temporada seguinte. Voltou para o Compostela, que havia sido rebaixado para segunda divisão. Cumpriu mais três anos de contrato, se desligou do clube espanhol e se transferiu para o ABC. Ali começava sua peregrinação por vários clubes, sem conseguir se firmar. O último deles, em 2013, o Santa Cruz, mas o do Rio Grande do Norte.

Maurício Leandrino, o porteiro


Maurício não ficou muito tempo desempregado. Enquanto aguardava aparecer um novo clube, foi perguntando pelo irmão, que trabalha como porteiro, se não gostaria de tirar as férias de um colega.
- Eu tinha acabado de chegar do Santa Cruz de Natal e meu irmão, que já é porteiro há muito tempo, disse que um supervisor chamou ele para tirar quatro plantões, ele não podia e me indicou. Aí, eu fui, cheguei lá e comecei a trabalhar de frente aos Aflitos, um estádio onde já tinha feito vários gols na minha carreira.


Fonte: Globo Esporte, 04/01/2018

Um comentário:

G Campelo disse...

Como o mundo da voltas. É uma pena não ter aproveitado as oportunidades e feito um pé de meia.